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Cenas do Cotidiano Piracicabano de Décadas Atrás (Adilson D. Paschoal F67)

03/09/2017


Para meus amigos piracicabanos e para aqueles que aqui moram ou moraram, que por certo se lembram do muito aqui relatado, dos anos 60 e 70, que o tempo, infalível em suas determinações, aos poucos vai apagando.

Parte 1. NA BRASSERIE.

Sábado de uma noite quente de dezembro, na praça central de Piracicaba, onde o cururu de Nhô Serra, Pedro Chiquito, Horácio Neto e Luizinho Rosa, acompanhados por hábeis violeiros, corre solto, animando a platéia, enquanto moças e moços quadramo jardim em busca do futuro. Nosso personagem, um casal jovem de piracicabanos de gema, de velhas tradições e linguajar inconfundível, cheio de expressões típicas, muita gíria e palavrões de arrepiar, deixa o palco do espetáculo, sem paralelo no Brasil, para matar a sede e a fome num dos mais tradicionais restaurantes da praça, pois ela “tava azur de fome” e ele seco pra bebê uma cerva bem gelada”. De classe média, ele trabalhava de torneiro mecânico na Metalúrgica Dedini e ela de vendedora de uma loja de “carsados” na avenida Rui Barbosa. A herança linguística deles vem dos pais de ambos, que, coincidentemente, trabalharam nos “canaviádo Engenho Central, daí a razão, também, de morarem na Vila Resende.

“A Brasserie”, como é conhecido o restaurante, fica na praça central da cidade, nas cercanias da rua Moraes Barros e do edifício Georgetta Brasil, o primeiro e um dos poucos da cidade. O restaurante propriamente dito fica no fundo do prédio, onde se alinham várias mesas, revestidas de toalhas de pano branco, cada uma com quatro pratos de louça branca, talheres dispostos com requinte, galheteiro com sal, vinagre e azeite, guardanapos de pano e o indispensável paliteiro. Do lado direito, em ampla área de luz, plantas de vários tipos ornam o ambiente, tornando-o mais aconchegante. Essa parte destina-se às famílias que vêm para almoçar ou jantar, sendo servidas a la carte.

Menos sofisticada, mas mais alegre, a parte anterior funciona como bar, destinando- se aos apreciadores de cerveja ou de chope e àqueles que querem apenas comer sanduiche. Nesta parte é que tomam assento os nossos personagens, em mesa da primeira fileira, quase na calçada, sentados vis a vis, isto é, um em frente do outro, como fazem habitualmente os casais. Logo mudam de lugar, pois ela, incomodada pelo “vento incanado, pudia pegá penamonia”:

Cabei de assuntá co garção diz o rapaz. Esse lugá num tá bão não; mió nói entrá pra drento, pra num pegá sereno!

Instalados, ao garçom ele pede uma Brahma casco escuro, de Agudos, a preferida dos entendidos no assunto, e ela um guaraná da Antarctica, de Ribeirão Preto, já que as locais, “Etubaina” e “Gengibirra”, das Bebidas Orlando, só se pede nos “dias de sábudo” e nos domingos, no almoço ou à tarde. O típico refresco piracicabano, o “cardo de cana”, só se encontra de dia nos garapero”. Para acompanhar o pedido dele, queijo mussarela, servido em cubos, regados com azeite e espetados com palitos, e o dela, um bauru, de carne bem passada.

Descontraídos, “garram a proseá”, conversa que se mistura com dezenas de outras, de mesmo tom e sotaque:

Eta negadinha batuta de cururuero diz ela. Nhô Serra é di campeão; Pedro Chiquito num fica atrais; abafaro a banca. A roda de violero nem si fala: bão pra mai di metro. A canção que eles cantaro num sai da minha muringa: “Ai moreninha moreninha meu amor / nas onda dos seus cabelo corre água e nasce fror”. Foi bão demai pra desnuviá; ocê num acha, mor?

Nem não! retruca ele. Cantá inté qu’eles canta bem, mai...
Mai o quê? interroga ela, curiosa.
Tão falano que di tanto enchê o barde o ... arresorveu pará di bebê. E rindo:

Tamém, no lugá in que cuspia nascia um pé di cana... Deuzolivre... Sartei di lado. E explicando: Do jeito que tava ino, marrando cada fogo di lascá, o disgramado ia logo pra caxa prego;... batia logo côas deis! ... Falaro inté que ele já tava berando o bico do corvo!

Pare di falá mar dos outro, inhonho! Num tem inducação não, é?... Dexa di se fofoquero! contesta ela, com irritação. E concluindo: Num se óia não, quiocê é otro pau d’água iguar!

Ara, vai saino muié! Pare de tezaná a idéia! contesta ele, mais irritado ainda. Inté parece que ocê tá cos ovo atravessado. Só tô falando o que ouvi dizê; que ele quase apitô na curva tudo nói sabemo. Pior que ele só o “Escurpião”, da Escola Grícola. Eta cachacero dos diabo! Sabe purque ele tinha esse pelido? E rindo: Purcaus que tava curtido no arco tar quar os bicho do museu da Zoologia...

Tentando acalmar os ânimos, para não estragar o animado final de semana, conta ela o seguinte caso:

Tá bão. Mudemo de pato pra ganso. O que tão falano do ... parece inté que é verdadero, que ele tá ganhano uma nota preta na Agronomia. Falaro que o diretô da ESARQ contratô ele, imagina ocê pra quê? Pra abri e fexá as janela do prédio principar. Ah, ah, ah. Tá certo que não é poca as janela, mais contratá arguém só pra fexá os vrido é uma barbaridade, ocê num acha, amordeu?

Tá veno. Agora é ocê que tá falano bobrinha. Puis fique sabeno que ele trabaia é de beder, e beder num ganha os zóio da cara não, cumo ocê tá falano. comenta ele, com certa indignação.

Ocê tá é dispeitado, purcaus que é um pobretão pondera ela.

Ô diacho, muié! Tá querendo esculachá cumigo? Qué sabê diuma coisa: tô poco ligando procê. Mais é mió pará cum essa cunversa pra boi durmi. Inté parece que nói semo cururuero: é só disafio e mintirada! impõe ele, encerrando o assunto.

Depois de alguns minutos sem conversa, ele subitamente se levanta. Achando que o marido ia “dá no pé”, porque parecia estar “muado”, inquire ela:

Donde ocê vai?
Priciso i no migué, pra disaguá. Já vorto já. Censa.
Inda bem! Pensei que ocê ia pinicá daqui o ia distripá o mico...

E assim, de conversa em conversa, o tempo vai passando. Subitamente, o relógio da Matriz bate horas. Ela, sem poder contar as batidas, pelo rumor alto das conversas, exacerbadas pelo conteúdo etílico alto dos fregueses habituais, rompe o silêncio enfadonho em que se encontrava e pergunta para o marido:

Benhe; queorqueagor? Tô num bagaço e cum sono! Chii! Temo fudido!
Que foi?
Perdemo o úrtimo bonde pra Vila!

Cuméquié? Perdemo o bonde? ...Num credito!... Era só o que fartava!... E depois de breve pausa, suficiente para ferver o sangue na cabeça: Morfioso de uma figa!

Desgranhento! Num falei procê que já era tarde! A festa da praça terminô faiz uma carrada de tempo. Que qui ocê tinha de vim bebê aqui nessa espelunca (sic); era pra vim paquerá as muié, as perdida, as rampera, é? Pensa qui num vi ocê buraquiano as perna da lora e o lordo dela? Num tô nem aí cosê, se ocê qué sabê.

Acabrunhado, tentando disfarçar sua indiscrição diante da esposa, diz ele enfático: Quem qui qué uma muié dessa! ...Num tenho curpa si ela tava dando o maior lance pra nói tudo vê. E depois de breve pausa: A única lora que tô buraquiano é essa que tô bebeno!...

Inté parece! Cunheço ocê num é di hoje! Dessa veiz ocê entornô o cardo! Agora quero sabê cumo é que nói vai fazê pra vortá pra casa. Que qui nói vai fazê? Num tem mais bonde e o úrtimo circular dexô o abrigo faiz mais de hora.

Depois de longo e tenebroso silêncio, seguramente refletindo na busca de uma solução acertada para o “pobrema”, exclama finalmente ele:

O jeito é i simbora de a pé.

De jeito manera! Mai nem que a vaca tussa qu’eu vô de a pé! Tá pensando qu’eu so ligera?

Bão. Intão bamo posá pur aqui memo!
E adonde?
Bamo campeá um hoter; tem qui sê! Garção! traiz a conta!

Pagando pelo que comeram e beberam, o rapaz aproveita para se informar com um dos irmãos donos do tradicional restaurante da praça José Bonifácio:

Adiscurpe eu! O sinhor cunhece um lugá pra gente arranchá perto daqui? pergunta ele. Nói temo muido di cansera e dispois tá muito tarde; perdemo inté as condução...

Perto só tem o Hoter Centrar, aqui do lado da catedrar; é só virá às esquerda e atravessá a pista responde o dono do estabelecimento, guardando o dinheiro e fechando a caixa registradora.

Deve sê caro pra... mirréis (ia dizer outra coisa, mas, ponderou, e usou uma expressão mais branda).

Num sei, purque nunca posei lá. Mai num é cumo de antes, que só tinha figurão. A concurrência cusotro hoter feiz o dono baixá os preço, e aí os ricaço sumiro.

Virô carne de vaca! pondera o rapaz. E em seguida: Será que tem lugá? Nunca fica lotado, principarmente nos finar di semana; é poco os hospede. Tá certo. Brigado. Inté.
Inté.

Quando o casal deixava o restaurante, o vento soprava forte e uma chuva fina começava a cair. Colocando seu casaquinho, a fim de se resguardar, e aliviada por deixar aquele ambiente que tanto a constrangeu, diz ela para o marido:

Finarmente. É longe o hoter?

Quar nada! Alá ele lá, ó (apontando para o Hotel Central, que se destacava na esquina).

Inda bem! Tá relampiano, cum cada crarão de dá medo; sinar que vai caí um toró; e eu num quero mi moiá.

Continua...

Nota. O restaurante Brasserie não mais existe, encerrando função há muitos anos. Foi importante estabelecimento gastronômico da família piracicabana nos anos 60 e 70, assim como o Jequibau, o Jardim da Cerveja, o Mirante, o “Chicken In”, o Ortiz, o Flamboiã e outros mais. A escolha desse restaurante prendeu-se ao fato de ser ele um dos mais badalados da época, à sua localização privilegiada, no centro da cidade, e porque o conhecia bem, desde estudante. 






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